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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma compreensão sociológica do combatente




“O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”
Zygmunt Bauman

Ao abordar o tema “Guerra do Iraque” temos o complicado ofício de se relacionar com questões contemporâneas, portanto permeadas por concepções ideológicas referentes ao momento em que vivemos. Contudo partindo do pressuposto que há uma sociologia consolidada sobre a contemporaneidade, na qual o indivíduo é evidenciado com novos simbolismos e relações sociais é interessante transpor o estudo especificamente ao combatente de guerra.
A “Guerra do Iraque” está cronologicamente inserida no período que Zygmunt Bauman (sociólogo polonês) denomina “modernidade líquida”, a sociedade nesse período está em constante mudança, exigindo de seus membros a capacidade de adequação rápida do modo de agir. Até pela rapidez das mudanças que perpassa a sociedade o culto à satisfação imediata, e ao reinício constante sustentam as dinâmicas sociais, reforçando portanto o consumismo como forma de se inserir no “establishment”.
O anseio pelo “establishment” condiciona os indivíduos à situações que não necessariamente os motivem pela causa, pelo contrário, as motivações são construídas de acordo com as exigências de atualidade, e volatilidade que a “modernidade líquida” impõe ao indivíduo. Nesse caso os indivíduos em busca de suas aspirações particulares se sujeitam ao alistamento em troca de determinados benefícios.
O conflito no Iraque é um campo fértil para refletirmos sobre o “pensar” do combatente, pois o exército norte-americano é composto em bom número por estrangeiros, o que difere a “Guerra do Iraque” de conflitos precedentes. A participação expressiva de imigrantes no exército é possível considerando a política governamental de oferecer o status de cidadão norte americano após dois anos de serviço militar.
O imigrante sujeito a diversas formas de coerção por parte da sociedade, e diminuído em relação à cultura estabelecida tem em sua concepção a oportunidade de se integrar, não ser excluído, ou seja, perpetuar a ordem excludente, não à subvertendo. Ao conseguir seu reinício dentro da “modernidade líquida” o novo combatente divergindo das opções patrióticas de outrora não projeta um fim, pois, a dinâmica do reinício na sociedade contemporânea incute a crença na constante transformação, no desapego a simbolismos consolidados.
As referências simbólicas para o combatente são superadas, proporcionando assim uma crise de identidade constante, o que de certa forma é comum ao indivíduo situado na contemporaneidade. Esse indivíduo se estabelece a partir de objetivos imediatos, tendo que agir de forma fluida, aderindo a situação em que se instaura, estabelecendo um desapego ao eterno, e a projetos amplos de bem comum que demandam longa dedicação.
E dentro dessa perspectiva não observa-se necessariamente o heroísmo do combatente, pois não há uma luta pela causa comum, ou pela causa patriótica. As relações sociais vigentes fomentaram um desencanto em relação à objetivos maiores, a morte em combate é enquadrada pelo governo como uma fatalidade necessária a imortalidade da nação. E dentro desse contexto há uma reafirmação de um sistema no qual o estado não consegue gerir plenamente sua segurança, e economia; utilizando enfim combatentes e portanto vidas suscetíveis à um trabalho que não se estabelece patrioticamente devido a fragilidade da questão nacional.

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